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O babaçu que nos move

Tem investimentos que a gente aprova em comitê. E tem investimentos que, com o tempo, nos lembram porque a gente escolheu fazer o que faz. E com quem a gente faz. A Tobasa é um desses casos.

Nossa história com a companhia começou em 2021, quando vimos pela primeira vez uma operação pequena, fora do eixo óbvio do mercado de capitais, no interior da Amazônia Legal. Era uma empresa de Tocantinópolis, no Bico do Papagaio, transformando o coco de babaçu, um fruto que cai naturalmente das palmeiras, em carvão ativado para filtros de água sem que uma árvore precisasse ser derrubada.

No começo, parecia uma história bonita, mas que ia dar um trabalho enorme. Não era óbvio, e por isso o roadshow não estava chegando em lugar nenhum. É difícil se debruçar sobre uma operação pequena, fora do radar, de uma indústria nova. Mas percebíamos o potencial mérito do projeto, ancorado pelo posicionamento dos produtos da companhia e pelo impacto sobre o ecossistema de produção, o que nos levou a aprofundar na análise do caso.

Fomos para a planilha, para as reuniões, para a estrutura de capital, para as garantias, para o fluxo de caixa e para os riscos. Fizemos análise fundamentalista, discutimos orçamento com a companhia, rodamos cenários, revisamos dívida, entendemos cliente, produto, margem, capital de giro e governança. E fomos para Tocantinópolis.

Porque um investimento tem essas duas camadas. A primeira é técnica: saber onde está o risco, como ele é remunerado e como pode ser mitigado. A segunda é humana: entender quem está por trás da empresa, o que move aquelas pessoas e se aquilo que está escrito no papel existe de verdade na economia real.

Na Tobasa, tudo se encaixava

A companhia foi fundada em 1968 por Edmond Aziz Baruque, engenheiro civil carioca e pioneiro no aproveitamento integral do coco babaçu. Ele construiu, no norte do Tocantins, uma empresa que gerou tecnologia, emprego e processo industrial para uma cadeia extrativista que já existia há gerações na região. Seu trabalho é reconhecido como uma contribuição relevante para o desenvolvimento econômico sustentável da região.

O filho, Edmond Baruque Filho, herdou mais do que uma empresa. Herdou uma missão.

É difícil falar da Tobasa sem falar dele. Baruque é o melhor exemplo do empreendedor brasileiro: apaixonado, insistente, criativo, econômico, incansável. Talvez essa seja a palavra que melhor define o empreendedor brasileiro e o Baruque: incansável.

No exercício de sua liderança positiva, ele busca o melhor para a empresa, para Tocantinópolis, para os funcionários; para a cadeia inteira. Manda mensagem de boas festas. Convida para a festa anual em Tocantinópolis. Compartilha conquistas, problemas, luto, emoção. Chora quando toca o sino na B3 para marcar o primeiro CRA verde da Tobasa e lembra de toda a trajetória do pai culminada com uma empresa do Bico do Papagaio entrando no mercado de capitais. O coco de babaçu, coletado por famílias agroextrativistas, virando lastro de uma operação estruturada. O trabalho de décadas do pai encontrando uma nova ferramenta para continuar crescendo na mão do filho.

Em 2022, participamos como investidores-âncora da primeira operação, esse CRA de R$ 32 milhões. Ajudamos a discutir garantias, estrutura, covenants e condições financeiras. A operação refinanciou dívidas caras, incompatíveis com o novo momento da companhia, e permitiu que a Tobasa continuasse investindo na expansão da biofábrica. Naquele momento, o retorno da operação ficou em CDI + 5,57% a.a., compatível com o risco na época.

Mas nossa relação não parou ali

Acompanhamos a empresa de perto. Investimos em diferentes fundos. Revisitamos números, riscos, metas, governança e resultado. Seguimos conversando com a companhia, entendendo seus desafios e ajudando a construir caminhos possíveis. E a empresa também evoluiu: hoje, a Tobasa já se aproxima de R$ 50 milhões de receita, com margem EBITDA acima de 30% e alavancagem líquida em torno de 3x.

Em 2025, voltamos para uma nova operação, agora com ainda mais conhecimento da empresa, mais histórico de relação e uma estrutura mais madura, com covenants mais exigentes e metas de sustentabilidade atreladas. O custo da nova dívida caiu para CDI + 4% a.a.. A redução do spread não é só um dado financeiro: ela também conta a história de uma companhia que cresceu, entregou e passou a acessar o mercado de capitais em melhores condições.

Esse é um ponto importante: não foi um investimento pontual. Foi uma relação construída ao longo de anos.

A Tobasa mostra que o mercado de capitais pode financiar mais do que empresas grandes, óbvias e bem servidas de alternativas. Ele pode chegar a uma empresa familiar, no interior do Brasil, com um modelo de negócios difícil de explicar em uma página, mas profundamente conectado a uma cadeia real de produção, renda e conservação ambiental. É um exemplo prático onde o capital ajuda a produzir efeitos reais na economia.

Na visita, isso deixou de ser um conceito. Vimos a fábrica. Vimos o babaçu chegando. Vimos a cadeia de coleta. Vimos a floresta em pé fazendo parte da lógica econômica do negócio. Vimos como a companhia se conecta a famílias agroextrativistas, lideranças locais, pequenos produtores e funcionários que cresceram junto com a empresa.

E vimos também algo que nenhuma planilha captura bem. Um colaborador nos mostrou a casa em que vivia antes da Tobasa e a casa em que vive hoje. A antiga era de barro avermelhado, madeira e palha. Uma construção simples, quase misturada ao chão ao redor. As paredes de terra crua carregavam marcas do tempo, o telhado de palha, alto e inclinado, cobria a estrutura como uma grande manta seca. Tudo ali tinha a textura da sobrevivência: a madeira, a terra, a sombra, o improviso.

A nova casa, construída literalmente ao lado, tinha paredes brancas, telhas claras, varanda frontal, pilares, janelas de vidro. Ainda estava cercada pela mesma vegetação, pelo mesmo chão vermelho, pela mesma paisagem. Mas havia uma diferença silenciosa entre as duas imagens. Não era luxo. Era avanço. Era permanência. Era a materialização simples e concreta de uma renda que cresceu, de um trabalho que ganhou escala, de uma empresa que conseguiu transformar uma cadeia tradicional em desenvolvimento. Esse colaborador construiu a própria casa com o irmão, criou uma frota para transportar os cocos das florestas até a fábrica. Hoje, coordena parte da rede que faz a bioindústria do babaçu funcionar.

É por isso que a Tobasa importa. O valor que a companhia gera para os seus stakeholders é a base para multiplicação do capital, necessário também para o serviço de sua dívida.

Não se engane, a Tobasa, como qualquer projeto corporativo, tem riscos: porte reduzido, governança ainda em evolução, necessidade de capital de giro, concentração regional e desafios típicos de uma companhia familiar em crescimento. Tudo isso precisou ser analisado, precificado, mitigado por meio da estruturação de garantias e acompanhado. E é exatamente aí que entra o nosso trabalho.

Gostamos da Tobasa não apesar da nossa análise de crédito, mas por causa dela.

Havia risco, havia retorno e havia estrutura possível. Havia garantias reais, covenants, spread, disciplina financeira e uma empresa que vinha melhorando sua capacidade de geração de caixa. E havia, ao mesmo tempo, uma externalidade que não era acessória: a floresta em pé faz parte da planilha.

Quando estruturamos uma operação com metas de sustentabilidade, não estávamos adicionando uma camada de marketing. Estávamos colocando em cláusula aquilo que já sustentava a empresa. A sustentabilidade, nesse caso, não é uma apresentação separada. É o motor econômico da companhia.

A Tobasa combina um produto necessário, uma cadeia extrativista, uma floresta nativa, uma empresa familiar, um empreendedor obstinado, uma comunidade inteira e o mercado de capitais. Mas nada disso se conecta automaticamente. Para que esses mundos se encontrem, precisa existir confiança.

Confiança é uma palavra bonita porque carrega, ao mesmo tempo, sentimento e responsabilidade. Vem da ideia de acreditar com firmeza, de depositar fé em algo ou em alguém. Crédito nasce desse mesmo lugar: acreditar, entregar algo hoje porque existe convicção de que aquilo será honrado amanhã.

No mercado, às vezes a gente tenta esconder essa dimensão humana atrás de números, contratos e estruturas. Mas ela continua ali. Todo crédito começa com uma pergunta: em quem, no que e sob quais condições podemos confiar?

O investidor confia em nós para sermos rigorosos com o dinheiro dele. Confia que vamos olhar o risco com profundidade, negociar bem, estruturar proteção, acompanhar a companhia e agir quando for preciso.

Do outro lado, o empreendedor também precisa confiar no futuro de seu projeto. Precisa abrir sua empresa, sua história, seus números e seus desafios para quem vai financiá-lo. Precisa acreditar que não somos apenas compradores de um papel, mas parceiros capazes de entender o negócio, respeitar sua trajetória e estruturar uma solução financeira que faça sentido para o seu momento. Que a nossa cobrança vem junto com escuta. Que a disciplina não exclui a proximidade. Que o contrato não apaga a relação. Na Tobasa, essa confiança foi construída no tempo. Em reunião, visita, comitê, negociação, acompanhamento, conversas difíceis e celebrações.

É isso que queremos dizer quando falamos em promover, por meio do mercado de capitais, transformações reais na economia.

Não é só comprar e vender um papel. É entender uma empresa profundamente, estruturar uma operação com rigor, assumir risco de forma responsável e permitir que o capital chegue onde pode destravar crescimento. É encontrar soluções financeiras eficientes e inovadoras que gerem valor para os investidores e, ao mesmo tempo, ajudem a transformar o crédito via mercado de capitais no Brasil.

Na Tobasa, ajudamos a transformar um fruto que caía no chão da floresta em uma bioindústria líder. Ajudamos a refinanciar dívida cara, alongar horizonte, exigir mais governança, atrelar crescimento a metas sustentáveis e levar uma empresa do interior do Tocantins para o centro do mercado de capitais.

E fizemos isso entregando crédito rentável, com estrutura, garantias e acompanhamento.

Talvez seja por isso que esse caso mexe tanto com a gente.

Porque ele lembra que crédito, quando bem feito, começa muito antes da emissão e continua muito depois dela. Começa na curiosidade de olhar uma empresa fora do eixo, passa pela diligência, pela visita, pelas inúmeras negociações, pelo contrato, pelo acompanhamento e pelas conversas difíceis. E, no caminho, encontra pessoas, histórias, territórios e futuros que também passam a fazer parte da nossa responsabilidade.

A Tobasa nos move porque mostra, em escala humana, o que o capital pode fazer quando encontra um bom empreendedor, uma boa estrutura e uma tese que merece crescer.

E é exatamente esse tipo de encontro que queremos continuar buscando.

Bem-vindo à Leto.

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